Quebra-Queixo

Cinquenta centavos de cruzeiro era o preço da minha felicidade em 1981.

De longe já dava para ouvir o grito daquele senhor que ecoava na superquadra entre os edifícios. E quanto mais forte ficava a voz, maior era a ansiedade em catar pela casa e pelos cofres as moedinhas.

” Óooooo- lha o quebra-quei-xoooooooo”.

O grito que criou pra anunciar sua chegada surtia o efeito daquele tiro simbólico na largada das corrida de cavalos. Era criança correndo para todos os lados, descendo escadas e elevadores com os bolsos cheios de moedas.

Não sei como ele conseguia atender ao mesmo, tantas mãozinhas ansiosas que sacudiam as moedas esperando a sua vez. Ele carregava uma forma enorme retangular na frente de uma bicicleta de carga.

Era um senhor que já trazia no rosto e nas mãos as marcas da idade e eu adorava assistir ele cortando os pedaços de quebra-queixo, puxando aquele fio de caramelo escuro, servindo em folhas de papel manteiga.

Ele dizia que falava inglês e a gente ficava extasiado de olhos arregalados prestando atenção naquelas palavras com sons esquisitos:

Ù-ó-tem-som -de-ú? Ú-ó-que-som-tem? “

Perguntava ele, misturando o seu “inglês” com aquele sotaque gostoso do nordeste, Dizia que já tinha ido à América e viajado o mundo, e nós acreditávamos em todas as histórias que ele contava.

Será que era verdade?

É a lembrança mais gostosa que tenho daquele tempo, nunca comi algo tão bom e tão diferente de tudo que já tinha provado. Eu sou das ambrosias, dos bem-casados, dos pães de ló, da doçaria pelotense com forte influência portuguesa.

Às vezes compro uma cocada preta tentando enganar meu paladar só pra tentar simular a lembrança do meu doce do coração.

Um dia espero me reencontrar com um tabuleiro enorme deste doce, que pelo que li tem origem no nosso Nordeste, mas desconfio que jamais provarei um igual ao daquele senhor baixinho e de pele castigada pelo sol.

FEVEREIRO DE 2019

Em tempo: Encontrei aqui em São Paulo, logo no primeiro dia que visitei a cidade, um moço que vende quebra-queixo quase na esquina da casa em que me hospedei. Eu fiquei enlouquecida, com como se tivesse encontrado uma arca do tesouro. Era um pouco diferente, parecia uma montanha, mas ele cortava fatias que puxavam o fio de caramelo, igualzinho ao da minha infância. É maravilhoso, mas não era igual aquele.

Também encontrei em potes, numa loja que vende produtos do Nordeste, mas não tem o mesmo sabor. Isto corrobora minha tese de que igual ao daquele senhor, jamais encontrarei.

Não porque a receita tenha se perdido no tempo, ou porque ninguém seja capaz de fazer. Acho que a criança em mim cresceu, e o sabor que se perdeu, foi o sabor da primeira vez.

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