Datilografia

Sou do tempo em que se fazia curso de datilografia. Era bom para o currículo e se tivesse o curso de máquina elétrica, então, melhor ainda.

Tenho os dois.

O Pai foi para fila do SENAC quase de madrugada para conseguir vaga para mim e para o meu irmão. Eu devia ter uns 16 anos, estudava de manhã e pela tarde ia para a Cidade Baixa fazer meu curso.

Não conheço muito do mundo, mas de tudo que conheço posso dizer que há poucas coisas tão belas quanto as tardes de outono em Porto Alegre. A temperatura é amena e o sol tem um tom alaranjado que só vi por lá.

Passávamos a tarde toda naquela função de trocar folhas e treinar exaustivamente as sequências de letras e números. Lembro do peso das teclas das máquinas antigas, o esforço para fazer a tecla descer para que os tipos imprimissem tinta na folha em branco.

Lembro de no final de cada linha soltar a máquina pra ela voltar a sua posição original. Se fechar os olhos posso ouvir todos aqueles sons peculiares que a máquina faz.

Rebatidas no texto? Nem pensar! Se errasse tinha que refazer tudo de novo. É o tipo de habilidade que só se adquire com muita repetição e treino. Linhas e linhas de ASDF ÇLKJ, sem tirar os dedos das teclas, mexendo os indicadores para os lados para alcançar o G e o H.

Os outros dedos nas suas posições tinham que alcançar as teclas de cima e debaixo. A Q A Z, S W S X e assim por diante.

Põe teus dedos no teclado e vê como é difícil!

Foco total no texto, olhar para as teclas era inaceitável, e desta sinfonia de sons e movimentos começaram a surgir as palavras que meus dedos perseguiam numa velocidade, que hoje, é invejável.

No intervalo, íamos numa vendinha ali perto fazer o nosso lanche: rapadurinha de leite e uma Laranjinha. A senhora, dona da venda, era quem fazia e ficava toda boba quando dizíamos que no mundo inteiro não havia outra igual.

Foi um mês inteiro, assistindo aulas todos os dias da semana para adquirir esta habilidade. Hoje em dia, parece que as pessoas já nascem digitando ou teclando (ou algo parecido).

Toda aquela dança dos dedos, transformou-se em um número solo de polegares ou indicadores.

Eu não, eu sou datilógrafa diplomada com muito orgulho. Aprendi naquelas Remingtons’ antigonas que pesam uma tonelada e meia. 

5 thoughts on “Datilografia

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